FAQ

Perguntas frequentes:

a. Por que as espécies invasoras prejudicam os ecossistemas? Elas não deveriam aumentar a diversidade, já que são uma espécie nova?

Ecossistemas são sistemas complexos cujas relações entre os seres vivos desenvolveram-se ao longo de milhares de anos por meio de processos evolutivos como a seleção natural e deriva genética. A chegada de novos organismos pode alterar as sensíveis relações que mantém o sistema funcionando de forma harmônica. As espécies exóticas invasoras em geral possuem características biológicas que potencializam a capcaidade de competição tais como crescimento rápido, elevado sucesso reprodutivo, alta eficiência de dispersão, etc. Além disso o crescimento populacional destas espécies não é controlado naturalmente, já que predadores ou doenças parasitárias locais muitas vezes não afetam os invasores que portanto têm crescimento populacional descontrolado. Assim, podemos dizer que as espécies invasoras competem em desigualdade com as espécies nativas, o que permite um avanço rápido no número de indivíduos que competirão com os demais pelos nutrientes disponíveis naquele ambiente, tendo como consequência dessa pressão nas espécies nativas a sua própria exclusão.

b. Para combater o mexilhão-dourado e outras espécies invasoras não seria mais fácil inserir um predador natural no ambiente?

Infelizmente a solução não é tão simples. Trazer o predador natural da espécie invasora é o mesmo que inserir uma nova espécie com potencial de invasão no ambiente. O resultado dessa ação pode ser ainda pior que o da espécie invasora inicial, como pôde ser comprovado em experiências anteriores de outros países. Além disso, o crescimento populacional de espécies não são regulados apenas por predadores. A disponibilidade de recursos, competição interespecífica e doenças são fatores que somados controlam crescimentos populacionais. Desta forma, a introduçnao de um predador, além de requerer estudos de longo prazo para avaliar as consequências no ambiente, poderiam ser ineficazes para o combate ao mexilhão dourado, cuja densidade populacional chega a 200 mil indivíduos por metro quadrado. Com um ambiente livre de doenças, recursos em abundância, competidores ineficientes e características ambientais favoráveis à reprodução, provavelmente não haveriam predadores suficientemente vorazes para controle destas populações de mexilhões. Ecossistemas são sistemas complexos cujas relações entre os seres vivos (simbiose, predação, competição, entre outras) desenvolveram-se ao longo de muitos anos. Sendo assim, dificilmente se pode prever as consequências de uma invasão a cada um deles, pois cada sistema tem seu próprio funcionamento, que depende das espécies (plantas, animais, fungos, etc) que dele fazem parte. Sabe-se que, em geral, as espécies invasoras competem em desigualdade com as espécies nativas, sobretudo por não terem a princípio um predador natural neste novo ambiente. Assim, muitas espécies nativas entram em risco, além de todo o sistema do ambiente invadido, que sofre alterações significativas e permanentes.

c. Existem muitos produtos químicos capazes de exterminar mexilhões. Por que não colocar estes produtos nas águas?

Matar o mexilhão-dourado não é uma tarefa difícil – o difícil, na verdade, é encontrar alguma solução que extermine apenas o mexilhão-dourado sem causar impactos negativos às outras espécies do ambiente. Os sistemas ecológicos são compostos por inúmeras espécies, e cada grupo desempenha importante papel na manutenção do equilíbrio do conjunto. Quando invadidos, esses sistemas buscam naturalmente o restabelecimento do equilíbrio, por meio das relações entre as diferentes espécies. Os aditivos químicos utilizados atualmente no extermínio do mexilhão-dourado não atuam de forma seletiva ou específica, apresentando por isso alta toxicidade para todos os organismos. A introdução de tais aditivos na busca pela eliminação do mexilhão-dourado também afeta as populações de moluscos nativos, além de exterminar os organismos planctônicos que ocupam a base da pirâmide alimentar. Estes organismos promovem a reciclagem de nutrientes essenciais à manutenção de toda a cadeia ecológica, garantindo a qualidade das águas que abastecem as populações humanas.

d. Se o mexilhão-dourado é um problema das hidrelétricas, o que a sociedade em geral tem a ver com ele?

Na verdade, não é bem assim. Por mais que o problema do mexilhão-dourado tenha se tornado conhecido e seja constantemente enfrentado pelas usinas hidrelétricas de áreas invadidas, o maior e mais preocupante problema são os danos causados ao meio ambiente e aos ecossistemas invadidos. Já existem soluções para o combate do mexilhão-dourado dentro das plantas de usinas hidrelétricas e outros sistemas industriais de captação e circulação de água. Embora haja algumas opções disponíveis, a adoção destas medidas prejudica as atividades destas indústrias, eventualmente aumentando os custos de operação, que serão sentidos no preço final pelo consumidor. Já no meio ambiente, a medida mais eficaz para a preservação dos ambientes naturais ainda é a contenção da dispersão para evitar novas invasões pois não existem medidas de combate eficaz conhecidas. Ainda que nas indústrias o prejuízo com o controle do mexilhão possa ser calculado em termos financeiros, o prejuízo ao meio ambiente é praticamente incalculável, pois importantes ecossistemas podem ser alterados para sempre e espécies endêmicas ou em risco de extinção podem desaparecer para sempre.

e. O mexilhão-dourado é comestível?

Transformar o mexilhão-dourado em iguaria poderia ser uma boa maneira de atenuar os prejuízos financeiros da invasão, no entanto, o mexilhão-dourado não é palatável. Além do seu tamanho reduzido e odor desagradável não permitirem, nossas pesquisas apontaram que o mexilhão-dourado, como exímio filtrador (destacando-se entre outras espécies), é capaz de filtrar e reter metais pesados (como chumbo e bário) e outras substâncias e agentes tóxicos que podem estar presentes na água, como as cianotoxinas. Essa possibilidade de retenção de metais pesados (entre outras substâncias) é observada não só no mexilhão-dourado, mas em todos os bivalves, o que demanda cuidados sensíveis em seu cultivo para consumo.

f. Por que as espécias nativas (como peixes, por exemplo) não são capazes de acabar com o mexilhão-dourado?

Algumas espécies de peixes, que seriam os principais predadores do mexilhão, não conseguem quebrar sua concha e, ao digeri-lo, acabam acumulando as conchas em seu trato digestório e eventualmente morrendo por desnutrição. Alguns peixes conseguem ingerir propriamente o mexilhão-dourado, mas este supre apenas uma parcela das necessidades nutricionais destes peixes. Competindo em desigualdade com outras espécies, o mexilhão-dourado acaba eliminando do ambiente outros organismos que comporiam a dieta dos peixes, seus possíveis predadores. A falta de alimentação adequada acaba, portanto, afetando também a polulação de peixes pela falta de alimentos adequados. Assim, em vez de se tornar uma nova opção de alimento para os peixes, o mexilhão-dourado acaba se tornando uma das únicas possíveis, prejudicando não só seus competidores, mas também seus predadores.

g. O que são cianobactérias e o que o mexilhão-dourado tem a ver com elas?

As cianobactérias, popularmente conhecidas como algas azuis, estão entre os organismos produtores de oxigênio mais antigos da Terra, com fósseis que datam de 3,5 bilhões de anos (Schopf, 2000). Florações (“blooms”) de fitoplancton dominadas por cianobactérias são uma das principais causas da degradação da qualidade das águas doces em todo o mundo (Chorus & Bartram, 1999) já que podem produzir cianotoxinas capazes de causar mortalidade de diversos organismos aquáticos, além de comprometer bacias de abastecimento. Alguns trabalhos observaram a interação do mexilhão dourado com populações de cianobactérias e observou-se maior crescimento populacional de cianobactérias nos locais com mexilhão. De acordo com os autores destes trabalhos, esse fato ocorre provavelmente porque os mexilhões modificam as concentrações de nutrientes da água, promovendo agregação das células solitárias de Microcystis sp. em colônias, sendo ambos os efeitos favorecedores à florações de cianobactérias. Além disso estes organismos seriam capazes de perceber a toxina das cianobactérias liberarem estes organismos através de suas pseudofezes. Desta forma os mexilhões estariam servindo como um importante fator seletivo ambiental que favoreceria a permanência destas espécies tóxicas e consequentemente maior ocorrência de blooms.

h. O mexilhão-dourado pode transmitir doenças?

Na região do Lago Michigan (Grandes Lagos – Canadá e EUA) houve em 2012 uma elevada mortalidade de aves e peixes por botulismo e pesquisadores da área ambiental como do Canadian Wildlife Health Cooperative e do Great Lakes Restoration estimam que os resposáveis por este problema possam ser alguns moluscos invasores. A explicação para tudo isso envolve compreender alguns sistemas complexos de um ecossistema: esporos de botulismo estão naturalmente distribuídos por todos os ambientes. Espécies invasoras aquáticas, como os mexilhões-zebra e mexilhões-quagga, alteram a qualidade da água favorecendo ao crescimento de algas que, quando se decompõem, reduzem o oxigênio dissolvido na água e criam as condições ideais para o desenvolvimento dos esporos da bactéria Clostridium botulinum, causadora do botulismo. Assim, esses mesmos mexilhões e peixes que filtram ou se alimentam da microbiofauna aquática acabam retendo essas toxinas em seu corpo, passando-as ao longo da cadeia alimentar para outros peixes e aves. Por fim, organismos suscetíveis ao botulismo acabam perecendo e, eventualmente, passando adiante as toxinas para o restante da cadeia.

Saiba mais no link: https://www.youtube.com/watch?v=EDx0tN8hUBE